SpeedfreakS: A Lenda Vive


Parece que foi ontem que tudo mudou, ainda é difícil aceitar, entender, explicar. E recentemente surgiu seu retrato no muro do Moinho, na entrada de Niterói – RJ. Há 6 anos seu silêncio comoveu a música no Brasil, naquela manhã de 26 de março. Posso dizer, que, de minha parte, soube da forma mais chocante e cruel. As pessoas deviam parar de viralizar notícias expondo pessoas em certas ocasiões. A notícia da morte de Cláudio Márcio de Souza Santos, vulgo Speed, em 2010, para mim sintetiza terrorismo, sensação de devastação cultural e representativa, como a queda das torres gêmeas, em 2001. É a comparação que consigo fazer diante de um ataque violento e uma perda monumental. Na minha visão, esses dois eventos marcaram (cada um em sua esfera), o início e o fim de uma Era.


Para Speed tudo era natural - a morte e a crueldade das pessoas - parecia que nada o abalava. Mas quem o conheceu um pouco, sabe que não era bem assim. Ele simplesmente era observador. Não era muito de entrar no mérito pessoal das questões, por mais profundas que fossem. Seus dramas pessoais, Speed guardava ou transmutava, mesmo injustiçado ou incompreendido. Eu percebi que isso foi muito da criação dele, com praticidade, firmeza, realismo e bom humor.


Era um tipo bronco, rústico, explosivo, mas também muito educado e engraçado! Era tido como “professor maluco” por alguns amigos queridos. Porém, eu não o via totalmente assim. Para mim, Speed não tinha nada de maluco. Ele apenas antecipou alguns anos da vanguarda e trabalhou pesado com o que tinha, com sua personalidade forte, humor ácido e muita sagacidade. Se tivesse uma mesa de som de 5 metros de extensão, com certeza faria um estrago! Mas o que ele tinha: uma CPU embalada no papelão, que utilizava espalhando as peças sobre a mesa. Era assim que produzia e gravava os sons, nos últimos anos. Pode parecer estranho sim. Mas não tem nada de maluquice. Isso é estar totalmente entregue à arte, vencendo tudo e todos e até contra a própria estatística, sobrepondo as dificuldades com resistência e genialidade.


Quando não havia registro de nenhum grupo de Rap em Niterói no início dos anos 90, ele fundou uma banda: SpeedFreakS (mesmo com talento pra fazer tudo sozinho). Quando ninguém pensava muito em Rap Game, ele só queria fazer som, algo que realmente apostava, de forma que pudesse realmente sobreviver do que acreditava. Hoje, mais de 20 anos depois, o sonho dele é o objetivo de muitos MCs e alguns poucos já vivem essa realidade muito bem. Enquanto MCs sonhavam com alguma projeção, status, alugavam carros, mulheres e mansões para gravar seus clipes, Speed teve um dos sons em parceria com Black Alien (“Quem Que Caguetou 'Follow Me'”) difundido em uma propaganda europeia por uma multinacional de carros e assim ganhou o mundo.


Na cronologia típica de convívio, a gente conhece uma pessoa, fica amigo e, caso ela se transforme em um artista, a gente passa a admirar a arte desse amigo. Mas com Speed foi diferente. Eu conheci primeiro a arte dele, aos 16 anos de idade, em 2001, por uma música na trilha de “Surf Adventures - O Filme”. Esse filme era febre em Saquarema, onde nasci. Eu lembro até hoje, “O Mundo Vai Acabar” ainda é uma das minhas favoritas. E logo depois fiquei viciada no disco solo “Expresso”, lançado no mesmo ano com essa faixa. “Um dos maiores discos de Rap Nacional dos últimos tempos”- a revista Isto É Gente, na época, classificou dessa forma.


E, então o conheci como fã, quando ele residia em São Paulo e eu fui morar em Niterói, onde eu tinha um programa de rádio na época da faculdade. Daí o convidei para uma entrevista, via internet, em 2006. Quando ele voltou para o Rio, nos conhecemos por acaso, na porta do show do DJ Afrika Bambaataa, na Fundição Progresso, no ano em que Speed lançou o disco “Meu Nome É Velocidade”, em 2008. Dias depois gravamos a entrevista, com pouco recurso invadimos o SESC Niterói, na cara e na coragem. O conteúdo foi satisfatório para ambos. Dessa entrevista também foi feito material em vídeo.

A partir de então ele me conheceu como amiga. No início ficava nervosa e ele sabia disso. Eu era uma jovem, com 20 e poucos anos e sabia que estava diante de uma lenda viva, construindo algo. Isso deixa qualquer um nervoso (vamos combinar). E ele sempre fazia alguma piada, quebrava o gelo, ou queria falar de música, política, ou sair pela rua trocando ideia. E logo viu que também sou espirituosa, um pouco excêntrica, era “meio maluquinha”, nas palavras dele.


Foram anos intensos para mim em Niterói, de certa forma sabia que tinha um propósito importante. Não tivemos tempo de executar nenhum plano, e nossa relação não era baseada em nenhum apelo pessoal, éramos apenas irmãos dando força um para o outro, no que cada um sabia fazer: eu na época com jornalismo e ele com sua música. Não demorou muito para Speed querer fazer uma outra entrevista. Estava empolgado com o disco novo que lançaria, com Skits e Remixes. Nos afastamos geograficamente por pura falta de recurso dos dois lados, mas ainda fazíamos planos de lançamentos, shows, entrevistas, e tudo mais que pudesse surgir. Ele sempre me pedia opinião sobre os sons dele e eu sempre respondia: “Sou suspeita”. E ele argumentava: “Mas eu gosto que você fale”. Foi uma dessas conversas que se eternizou na minha mente. Tempos idos, tempo bom. Speed entendeu exatamente o meu propósito enquanto estive lá.


Em 2009 estávamos combinando de realizar um show dele. É como se eu entendesse o que o destino faz, atomicamente na vida de alguém. Revisitei mentalmente todo caminho que fiz até chegar nessa frase dele: “Vou fazer um show memorável em Saquarema”. Não tivemos esse tempo. Em 2010, quando ele foi brutalmente assassinado, tive uma sensação de injustiça muito forte. Entendi, com o tempo: o destino se cumpriu, quando fez nascer uma lenda.


Pude perceber o que estava acontecendo meses, anos depois. Tinha feito parte de algo realmente grandioso. E ainda não sei falar desse episódio sem completar com algo lúdico, que trate os bloqueios das questões, onde eu consiga me distanciar dos fatos, como uma boa jornalista, sem me atordoar. Mas também sou humana, poeta e artista. Ele me perdoaria por minhas complexidades.


Speed também convivia com complexidades e dilemas. Como a dor de um homem que transformou a própria obra em testamento, como um desabafo, em músicas inquietantes, autorreferentes e contemplativas (no disco “Meu Nome É Velocidade” de 2008). Por trás de toda carcaça do Rap existia um cantor visceral, um baixista nato, produtor ousado, um cara doido pelo que fazia! Que respeitava e sempre homenageava as mulheres em suas músicas, era um dos poucos que assumia que sabia distinguir a figura da fã, da mulher e de um objeto, a exemplo da música “Garota Bonita”.


Um dos Maiores Desbravadores do Rap Nacional


Já ouvi de um produtor que, teoricamente nos dias de hoje, Speed poderia ter migrado para o Trap, reinando nas festas e nos shows! Tive algum indício dessa possibilidade ouvindo a música “Não Sabe”... Mas prefiro acreditar que ele deixou 7 discos solo para abrir o caminho de muitos na foice! Veio fazer o trabalho sujo! Só por isso tem o respeito daqueles que param para conhecer um dos maiores desbravadores do Rap Nacional. Seu trabalho póstumo foi abrilhantado por parte da família, que disponibilizou o clipe de “A Morte no Jogo”, para ser lançado pela MTV. A metalinguagem da letra e da estética visual sugerem algo sobrenatural, como ele jamais acreditaria em vida.


A meu ver, um homem que em sua excentricidade sabia exatamente como ia morrer, com coerência e objetividade entre seu discurso musical e pessoal, por vezes até inquestionável, com vícios e virtudes. Speed era tudo o que queria ser, e nem um terço do que poderia ter sido, com toda sua verve. Após sua morte, ironicamente ou não, o mesmo som da propaganda de carro entrou na trilha do filme “Velozes e Furiosos V – Operação Rio”. No decorrer desses 6 anos, pude ver a quantidade e qualidade de amigos que fiz e que, assim como eu, mantém sua memória viva. Inclusive, descobri que ele passou boa parte da adolescência nos anos 80 em Saquarema, com amigos. Vejo a quantidade de fãs e artistas que sempre esperam algum material, um alento de seu legado vir à tona. E eis que surge esse portal, literalmente, com toda sua discografia e obra, onde posso escrever modestamente essas linhas.


Hoje, em 26 de março, 6 anos após sua morte, observo a ressonância de sua obra nas particularidades das festas e tipos de públicos da cena atual. Cada vez que vejo um MC ousado e irreverente no microfone, Speed está lá também. Quando vejo algum músico lutando pelo cachê e condenando os balões dos bastidores, ele continua coexistindo. Speed podia se impor e ao mesmo tempo parecer cordial em questão de segundos. A humildade de um gigante, com força de causa e efeito. É como a homenagem do graffiti. Da rua viestes, à rua retornarás! E especialmente hoje, Cláudio Márcio “Speed” é inspiração para a minha própria arte (foto abaixo).



* Monique Barcellos é jornalista de Saquarema-RJ, fez o primeiro estudo acadêmico sobre Rap Carioca, em 2006. Atualmente é tatuadora e artista plástica.

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